Como já havíamos comentado no outro artigo dessa série (“o desenvolvimento da potência com o kettlebell”), as modalidades esportivas englobam diversas capacidades motoras, como potência, velocidade, agilidade, coordenação, força, flexibilidade, etc..
Independente de como essas capacidades serão combinadas para cada modalidade, sempre haverá uma necessidade que sempre será recrutada: a capacidade de se estabilizar as articulações anteriormente à geração do movimento.
Para se conseguir transferir as forças geradas contra o chão pelos calcanhares durante o movimento, todas as articulações envolvidas precisam ser mantidas numa posição neutra e estável, para que não haja uma sobrecarga inadequada que possa acarretar numa lesão indesejada.
A trajetória irregular dos movimentos do kettlebell e o seu centro de gravidade fora do centro das mãos requer uma melhor coordenação motora e níveis de atenção e foco mais altos. A mecânica necessária para se controlar o peso requer uma ação muscular que explora alavancas pouco trabalhadas tanto na musculação tradicional quanto no levantamento olímpico.
A complexidade dos movimentos, mesmo de simples execução, faz com que os níveis de atenção e foco estejam presentes em todos os momentos, ajudando assim a desenvolver uma melhor propriocepção, tanto corporal quanto dos movimentos a serem executados.
A técnica de treinamento com kettlebells permite também a adaptação para qualquer uma das outras capacidades citadas, como poderá acompanhar na série de artigos “Kettlebell e Esporte”.
Unir a força com a potência em um curto espaço de tempo para a explosão. Esses são os objetivos do treinamento denominado kettlebell, que foi apresentado ontem para representantes da Polícia Militar de Jundiaí, Corpo de Bombeiros e Guarda Municipal da Região. A iniciativa faz parte do programa de conscientização da PM para a prática esportiva entre os agentes. Pode parecer estranho à primeira vista. Uma bola de ferro fundido com uma alça com que o praticante realiza movimentos segurando o objeto, que pesa entre 8 e 32 quilos.
De acordo com Thiago Passos, mestre em Ciências do Movimento e especialista internacional em condicionamento e força, os destaques do treino são exatamente a eficiência e a rapidez com que o esporte condiciona o corpo. "Os russos ganhavam todas as medalhas nas Olimpíadas. Os americanos e alemães achavam que era resultado de esteróides, mas não. Era porque sempre treinaram com kettlebell", conta. Passos afirma que a diferença do esporte para outros treinamentos está na colocação das leis da Física a favor do corpo.
Com um peso móvel, o centro da gravidade durante o exercício é transferido do corpo para o objeto. "É exatamente o que acontece quando um policialempunha uma arma, escudo ou cassetete." A educadora física Maria Eliza Briganti de Oliveira, praticante do treinamento, afirma que os fundamentos são utilizados em forças de segurança internacionais. "A Swat, CIA e FBI são adeptos de kettlebell pela agilidade, força e potência que proporciona com as repetições das séries de exercícios", conta.
Primeira impressão - Integrantes de vários segmentos de segurança da Região participaram da apresentação da nova modalidade realizada ontem, no Clube Nacional, em Jundiaí. De acordo com o comandante do 49o Batalhão da Polícia Militar, coronel Wagner Fachini, organizador da apresentação, a corporação precisa renovar no quesito preparo físico.
"Esse treinamento oferece condicionamento rápido e é isso que estamos precisando", resume. O comandante do 19o Grupamento do Corpo de Bombeiros de Jundiaí, Flávio José Bianchini, espera conseguir implantar o esquema na corporação. "Os exercícios são bastante eficientes. Todo o equipamento de segurança dos bombeiros pesa mais de 32 quilos", conta.
Nos últimos anos
uma tendência de treinamento norte-americana começou a invadir as academia do
Brasil, e mesmo havendo muita discussão entre os profissionais da área sobre a
aplicação prática dessa técnica, muitas academias de ponta do mercado
brasileiro já resolveram utilizar o nome “treinamento funcional” pra qualquer
atividade que envolva uma bola e um elástico. Agora, encontramos “Pilates
Funcional”, “Funcional Core Zone”, “health funcional” e acho que demorará muito
pouco até surgir o ioga funcional!
Porém do que se
trata o treinamento funcional? E quem está certo ou errado ao difundir e
banalizar o nome ao usá-lo para tantas técnicas diferentes e como podemos
chegar à um consenso sobre como utilizar
essa denominação da melhor maneira possível.
Pra entendermos
como o “functional training” (treinamento funcional) é utilizado no maior
mercado mundial de fitness e treinamento, uma análise das mais conceituadas
certificações americanas tentará mostrar que mesmo se usando todas as
ferramentas e exercícios que podemos encontrar em milhares de vídeos
disponíveis na internet, essa forma de treinamento envolve conceitos, técnicas,
e sistemas que precisam ser discutidos e organizados de forma coerente,
apresentando uma razão técnica pra que seja respeitado por todos os
profissionais do treinamento e atividades físicas, principalmente por
mostrar-se extremamente eficiente em todas as situações que envolvam
treinamento físico e performance humana.
Fisioterapia
x Educação Física e Esporte?!?
Uma das
características comum das certificações é uma maior interação entre o
treinamento físico e técnicas fisioterápicas, principalmente na identificação
de desequilíbrios musculares dos indivíduos. Percebeu-se que ao utilizarem
essas técnicas, houve uma diminuição no número de lesões, uma diminuição do
tempo de recuperação ao se lesionar, e um melhora nas capacidades de força e
endurance em decorrência de uma melhor eficiência na aplicação das
periodizações.
Como nos Estados
Unidos não há uma exigência em se ter um diploma na área, o uso de
certificações é amplamente difundido e é a maneira aceita pelo mercado para se
avaliar o conhecimento básico do profissional. Nesse artigo serão apresentadas
certificações e entidades que foram testadas por esse autor, e limitarei esse
artigo àquilo que posso julgar, portanto há certificações diferentes dessas no
mercado, mas não acho correto analisar o que não experimentei.
Cursos
diferentes para objetivos diferentes.
A National Academy
of Sports Medicine (NASM) usa essa característica em todas suas certificações.
Ela usa o modelo do Optimum Performance Training, visando uma estruturação
organizada em diferentes níveis. Sua certificação de entrada é o Certified
Personal Trainer (CPT), cujo livro de
500 páginas dá uma visão geral dos fundamentos das ciências do movimento
humano, programação de treinamento, avaliações funcionais, conceitos de
treinamento, nutrição esportiva e tratamento ao cliente. Eles oferecem também o
workshop que prepara para o teste, onde ensinam as avaliações e como as
utilizar para identificar, corrigir e treinar os atletas e alunos.
Como
especializações, eles também oferecem a Performance Enhancement Specialist, que
obedece o mesmo modelo OPT de organização do treinamento, porém de forma mais
completa, para se trabalhar mais com atletas de competição. As avaliações são
mais detalhadas, os períodos de treinamento são mais divididos ainda, as aplicações são cientificamente comprovadas
e atingiram excelentes resultados para atletas de altíssimo nível, mas também
para a pessoa normal que sempre busca por uma melhora na sua condição física.
Essa é a certificação preferida dos técnicos de força da NBA, e está se
tornando tão importante quanto a CSCS (certified Strength and conditioning
Specialist), da NSCA (National Strength and Conditioning Association), nos
times profissionais e universitários.
A NASM também apresenta uma especialização em correção Postural (CES
– Corrective Exercise Specialist), que visa àqueles que apresentam disfunções
mecânicas, desequilíbrios musculares ou uma necessidade de continuar um
tratamento fisioterápico, porém quando já terminou suas sessões de
fisioterapia.
Para aqueles formados em Educação física e Esporte, a NASM oferece
um programa conjunto de Mestrado em Ciências de Esporte que têm uma ênfase
prática, visando o trabalho no dia a
dia, e não em pesquisa, e com um conteúdo amplo e diversificado, dando um
suporte muito bom para o profissional que quer realmente entender do que tratam
todos os conceitos que a NASM acredita, de forma científica e no mesmo formato
que tivemos na Faculdade.
Paul Chek, uma lenda viva no Treinamento Funcional.
Já no CHEK Institute, instituição liderada por um dos precursores
dessa nova onda de treinamento funcional, Paul Chek, o approach utilizado é um
pouco diferente. A atenção dada à parte biomecânica impressiona. O entendimento sobre as
interações musculares, articulares, e dos sistemas do corpo é feito de forma
muito bem detalhada, ao ponto de se tornar quase um material com um excesso de
detalhes, sendo que não temos a autoridade legal (=médica) de lidar com tanta
profundidade sobre a lesão de uma pessoa. Porém se o contentamento em se obter
o conhecimento extremo sobre o corpo e a biomecânica aplicada ao movimento,
esse pode ser o lugar.
Diferentemente da NASM, no Chek Institute a atenção que se dá para
as periodizações sistemáticas é menor, enquanto a ênfase está muito mais no
desenvolvimento dos padrões fundamentais de movimento e no processo integrativo
entre os sistemas do corpo. Há também uma atenção muito grande na questão da
alimentação integral como forma de buscar uma melhora na performance da pessoa
como um ser completo, ou seja, a utilização de alimentos orgânicos, frescos,
com alto valor nutricional e com pouca utilização de alimentos “brancos”
(leite, açúcar branco, sal, farinha branca), e muito mais que envolve a
nutrição funcional. Todo o enfoque dado por eles à nutrição tem muito pouco a
ver com calorias, e sim com a qualidade do alimento e sua influência na
performance.
J.C. Santana, MMA e notável palestrante.
Outro grande pesquisador de treinamento funcional é Juan Carlos
Santana, e não é o guitarrista mexicano. J.C. Santana, como é mais conhecido, é
proprietário do instituto de treinamento na Flórida IHP (Institute of Human
Performance), considerado um dos melhores centros de fitness funcional do
mercado, e seu foco está em usar técnicas usadas por atletas, também com as
pessoas normais. Muitos de seus alunos são lutadores e ele apresenta um foco
muito mais prático, principalmente em seus mais de 60 livros e DVD’s sobre o
assunto. Suas habilidades com os tubos elásticos e com a bola suiça são
impressionantes e a variedade de exercícios usada por J.C. é tanta que me senti
entrando numa carreira nova quando conheci seu material, por tanta variedade
que me foi apresentada.
A revolução com Gray Cook e o FMS.
Nos últimos anos tem ocorrido uma tendência de integração do
conhecimento de muitos profissionais ligados ao assunto, porém a conclusão que
se tem chegado é que o sistema de análise apresentado por Gray Cook, um
fisioterapeuta de Virginia, tem se mostrado o mais eficiente em apontar de
forma funcional quais são os desequilíbrios que precisam ser trabalhados, e a
maneira prática de se fazer isto. Outros grandes profissionais estão usando o
FMS (Functional Movement Screen, criação de Gray Cook e Lee Burton) como a
ferramenta preferida de avaliação. Mark Verstegen, do Athletes Performance
Institute, Michael Boyle, especialista
em treinamento funcional e performance de atletas, Dr. Greg Rose, do Institute
Titleist de Golfe, entre outros, têm tidos resultados excelentes em
identificarem esses focos que ocasionalmente se tornariam uma lesão e os
transformarem em potência pura.
Kettlebell e correções nos padrões do movimento.
Outro campo que acabou de se render também ao FMS e a Gray Cook foi
àquele do kettlebell training. Pavel Tsatsouline, introdutor da técnica nos
Estados Unidos, acabou de lançar uma nova certificação que envolve o FMS
(CK-FMS, Certified Kettlebell-Functional Movement Specialist), e a meta dessa
certificação é usar os kettlebells para corrigir as disfunções. Gray Cook se
tornou um especialista em kettlebells para poder comprovar a eficiência da
técnica do treinamento e integrar as duas certificações de forma completa.
Nesse momento, o consenso está no fato que o FMS funciona para todos os grupos,
e tem mostrado resultados expressivos em todos eles.
Um caminho brilhante a ser
percorrido!
No Brasil, ainda estamos engatinhando no assunto, e nesse momento,
as discussões estão sendo feitas de forma não embasada, porém todos querem
usufruir da novidade, para estarem à frente do mercado. A dúvida maior que fica
é se a banalização de tanta informação a ser processada pode prejudicar o uso dessa
forma sistemática, progressiva, e orientada de treinamento e que ela seja vista
no futuro como mais uma onda que passou. A decisão entre embasarmos o uso do
Treinamento Funcional ou de o banalizarmos como mais uma aula de ginástica está
na mão dos profissionais sérios que entendem a necessidade de se continuar
sempre estudando e questionando as novas “ondas”, com o objetivo de separar o
joio do trigo, e todos terminarmos com a sabedoria em nossas mãos.
A maioria das modalidades esportivas englobam diversas capacidades motoras, tais como potência, velocidade, agilidade, coordenação, força, flexibilidade, entre outras. A especificidade de cada uma das modalidades exige que haja uma combinação que priorizem uma ou outra dessas capacidades.
Diversos estímulos (tipos de treino), quando somados, geram as adaptações específicas necessárias. A vantagem do uso do kettlebell na preparação física, é que ele consegue estimular todas essas capacidades físicas ao mesmo tempo.
Nas modalidades esportivas que exijem potência (ou qualquer modalidade que envolva saltos, arremessos, chutes ou socos!) o foco do trabalho é a geração de energia dinâmica atraves da extensão do quadril.
Essa energia pode ser desenvolvida por dois dos movimentos básicos do treinamento com kettlebells que são balísticos, o swing e o snatch, pois exigem um movimento de extensão potente do quadril, otimizando a integração neuromuscular das cadeias posteriores, fundamentais para esse desenvolvimento da potência.
Uma das maneiras mais utilizadas para se treinar potência é o treinamento com saltos, que apesar de apresentar excelentes resultados, lida com um ponto que pode se tornar lesivo se não for muito bem controlado: a aterrissagem. Porém, diferentemente do treinamento com saltos, o uso do kettlebell permite que se preserve melhor as articulações do atleta, por não ter a aterrissagem no movimento, porém ainda estimulando a absorção da energia elástica e a transferindo para energia cinética. Essa troca basea-se no ciclo alongamento-encurtamento, um mecanismo que seu corpo utiliza que faz com que seus músculos atuem como elásticos (ação excêntrica seguida imediatamente por ação concêntrica explosiva), para gerar mais velocidade durante a execução dos saltos, e consequentemente um ganho maior em distância, altura, e ou consistência desses movimentos.
A técnica de treinamento com kettlebells permite também a adaptação para qualquer uma das outras capacidades citadas, como poderá acompanhar na série de artigos “Kettlebell e Esporte”, publicados no site www.artedaforca.com.br, em parceria com www.treinamentoesportivo.com