Nos últimos anos
uma tendência de treinamento norte-americana começou a invadir as academia do
Brasil, e mesmo havendo muita discussão entre os profissionais da área sobre a
aplicação prática dessa técnica, muitas academias de ponta do mercado
brasileiro já resolveram utilizar o nome “treinamento funcional” pra qualquer
atividade que envolva uma bola e um elástico. Agora, encontramos “Pilates
Funcional”, “Funcional Core Zone”, “health funcional” e acho que demorará muito
pouco até surgir o ioga funcional!
Porém do que se
trata o treinamento funcional? E quem está certo ou errado ao difundir e
banalizar o nome ao usá-lo para tantas técnicas diferentes e como podemos
chegar à um consenso sobre como utilizar
essa denominação da melhor maneira possível.
Pra entendermos
como o “functional training” (treinamento funcional) é utilizado no maior
mercado mundial de fitness e treinamento, uma análise das mais conceituadas
certificações americanas tentará mostrar que mesmo se usando todas as
ferramentas e exercícios que podemos encontrar em milhares de vídeos
disponíveis na internet, essa forma de treinamento envolve conceitos, técnicas,
e sistemas que precisam ser discutidos e organizados de forma coerente,
apresentando uma razão técnica pra que seja respeitado por todos os
profissionais do treinamento e atividades físicas, principalmente por
mostrar-se extremamente eficiente em todas as situações que envolvam
treinamento físico e performance humana.
Fisioterapia
x Educação Física e Esporte?!?
Uma das
características comum das certificações é uma maior interação entre o
treinamento físico e técnicas fisioterápicas, principalmente na identificação
de desequilíbrios musculares dos indivíduos. Percebeu-se que ao utilizarem
essas técnicas, houve uma diminuição no número de lesões, uma diminuição do
tempo de recuperação ao se lesionar, e um melhora nas capacidades de força e
endurance em decorrência de uma melhor eficiência na aplicação das
periodizações.
Como nos Estados
Unidos não há uma exigência em se ter um diploma na área, o uso de
certificações é amplamente difundido e é a maneira aceita pelo mercado para se
avaliar o conhecimento básico do profissional. Nesse artigo serão apresentadas
certificações e entidades que foram testadas por esse autor, e limitarei esse
artigo àquilo que posso julgar, portanto há certificações diferentes dessas no
mercado, mas não acho correto analisar o que não experimentei.
Cursos
diferentes para objetivos diferentes.
A National Academy
of Sports Medicine (NASM) usa essa característica em todas suas certificações.
Ela usa o modelo do Optimum Performance Training, visando uma estruturação
organizada em diferentes níveis. Sua certificação de entrada é o Certified
Personal Trainer (CPT), cujo livro de
500 páginas dá uma visão geral dos fundamentos das ciências do movimento
humano, programação de treinamento, avaliações funcionais, conceitos de
treinamento, nutrição esportiva e tratamento ao cliente. Eles oferecem também o
workshop que prepara para o teste, onde ensinam as avaliações e como as
utilizar para identificar, corrigir e treinar os atletas e alunos.
Como
especializações, eles também oferecem a Performance Enhancement Specialist, que
obedece o mesmo modelo OPT de organização do treinamento, porém de forma mais
completa, para se trabalhar mais com atletas de competição. As avaliações são
mais detalhadas, os períodos de treinamento são mais divididos ainda, as aplicações são cientificamente comprovadas
e atingiram excelentes resultados para atletas de altíssimo nível, mas também
para a pessoa normal que sempre busca por uma melhora na sua condição física.
Essa é a certificação preferida dos técnicos de força da NBA, e está se
tornando tão importante quanto a CSCS (certified Strength and conditioning
Specialist), da NSCA (National Strength and Conditioning Association), nos
times profissionais e universitários.
A NASM também apresenta uma especialização em correção Postural (CES
– Corrective Exercise Specialist), que visa àqueles que apresentam disfunções
mecânicas, desequilíbrios musculares ou uma necessidade de continuar um
tratamento fisioterápico, porém quando já terminou suas sessões de
fisioterapia.
Para aqueles formados em Educação física e Esporte, a NASM oferece
um programa conjunto de Mestrado em Ciências de Esporte que têm uma ênfase
prática, visando o trabalho no dia a
dia, e não em pesquisa, e com um conteúdo amplo e diversificado, dando um
suporte muito bom para o profissional que quer realmente entender do que tratam
todos os conceitos que a NASM acredita, de forma científica e no mesmo formato
que tivemos na Faculdade.
Paul Chek, uma lenda viva no Treinamento Funcional.
Já no CHEK Institute, instituição liderada por um dos precursores
dessa nova onda de treinamento funcional, Paul Chek, o approach utilizado é um
pouco diferente. A atenção dada à parte biomecânica impressiona. O entendimento sobre as
interações musculares, articulares, e dos sistemas do corpo é feito de forma
muito bem detalhada, ao ponto de se tornar quase um material com um excesso de
detalhes, sendo que não temos a autoridade legal (=médica) de lidar com tanta
profundidade sobre a lesão de uma pessoa. Porém se o contentamento em se obter
o conhecimento extremo sobre o corpo e a biomecânica aplicada ao movimento,
esse pode ser o lugar.
Diferentemente da NASM, no Chek Institute a atenção que se dá para
as periodizações sistemáticas é menor, enquanto a ênfase está muito mais no
desenvolvimento dos padrões fundamentais de movimento e no processo integrativo
entre os sistemas do corpo. Há também uma atenção muito grande na questão da
alimentação integral como forma de buscar uma melhora na performance da pessoa
como um ser completo, ou seja, a utilização de alimentos orgânicos, frescos,
com alto valor nutricional e com pouca utilização de alimentos “brancos”
(leite, açúcar branco, sal, farinha branca), e muito mais que envolve a
nutrição funcional. Todo o enfoque dado por eles à nutrição tem muito pouco a
ver com calorias, e sim com a qualidade do alimento e sua influência na
performance.
J.C. Santana, MMA e notável palestrante.
Outro grande pesquisador de treinamento funcional é Juan Carlos
Santana, e não é o guitarrista mexicano. J.C. Santana, como é mais conhecido, é
proprietário do instituto de treinamento na Flórida IHP (Institute of Human
Performance), considerado um dos melhores centros de fitness funcional do
mercado, e seu foco está em usar técnicas usadas por atletas, também com as
pessoas normais. Muitos de seus alunos são lutadores e ele apresenta um foco
muito mais prático, principalmente em seus mais de 60 livros e DVD’s sobre o
assunto. Suas habilidades com os tubos elásticos e com a bola suiça são
impressionantes e a variedade de exercícios usada por J.C. é tanta que me senti
entrando numa carreira nova quando conheci seu material, por tanta variedade
que me foi apresentada.
A revolução com Gray Cook e o FMS.
Nos últimos anos tem ocorrido uma tendência de integração do
conhecimento de muitos profissionais ligados ao assunto, porém a conclusão que
se tem chegado é que o sistema de análise apresentado por Gray Cook, um
fisioterapeuta de Virginia, tem se mostrado o mais eficiente em apontar de
forma funcional quais são os desequilíbrios que precisam ser trabalhados, e a
maneira prática de se fazer isto. Outros grandes profissionais estão usando o
FMS (Functional Movement Screen, criação de Gray Cook e Lee Burton) como a
ferramenta preferida de avaliação. Mark Verstegen, do Athletes Performance
Institute, Michael Boyle, especialista
em treinamento funcional e performance de atletas, Dr. Greg Rose, do Institute
Titleist de Golfe, entre outros, têm tidos resultados excelentes em
identificarem esses focos que ocasionalmente se tornariam uma lesão e os
transformarem em potência pura.
Kettlebell e correções nos padrões do movimento.
Outro campo que acabou de se render também ao FMS e a Gray Cook foi
àquele do kettlebell training. Pavel Tsatsouline, introdutor da técnica nos
Estados Unidos, acabou de lançar uma nova certificação que envolve o FMS
(CK-FMS, Certified Kettlebell-Functional Movement Specialist), e a meta dessa
certificação é usar os kettlebells para corrigir as disfunções. Gray Cook se
tornou um especialista em kettlebells para poder comprovar a eficiência da
técnica do treinamento e integrar as duas certificações de forma completa.
Nesse momento, o consenso está no fato que o FMS funciona para todos os grupos,
e tem mostrado resultados expressivos em todos eles.
Um caminho brilhante a ser
percorrido!
No Brasil, ainda estamos engatinhando no assunto, e nesse momento,
as discussões estão sendo feitas de forma não embasada, porém todos querem
usufruir da novidade, para estarem à frente do mercado. A dúvida maior que fica
é se a banalização de tanta informação a ser processada pode prejudicar o uso dessa
forma sistemática, progressiva, e orientada de treinamento e que ela seja vista
no futuro como mais uma onda que passou. A decisão entre embasarmos o uso do
Treinamento Funcional ou de o banalizarmos como mais uma aula de ginástica está
na mão dos profissionais sérios que entendem a necessidade de se continuar
sempre estudando e questionando as novas “ondas”, com o objetivo de separar o
joio do trigo, e todos terminarmos com a sabedoria em nossas mãos.
Thiago
Passos, M.S., C.S.C.S.
Performance Enhancement Specialist
Russian Kettlebell Challenge Certified
CHEK Practitioner Level I - FMS Certified
